Cinza e seu significado para nossa vida
Com a Quarta-feira de Cinzas abrimos a nossa caminhada quaresmal. E para iniciar esta caminhada nós recebemoscinzas, colocando-as na nossa cabeça (testa). O significado simbólico da cinza está ligado com suasemelhança com o pó e com o fato de que ela é o resíduofrio e ao mesmo tempo purificado da queima após a extinção do fogo. Por isso, em muitas culturas ela é símbolo da morte, da transitoriedade, do arrependimentoe da penitência, mas também da purificação e daressurreição. Para expressar luto, os gregos, os egípcios, os judeus, os árabes e as tribos primitivas espalhavam cinzas sobre a cabeça ou assentavam-se ou rolavam-se sobre as cinzas (alguns textos bíblicos para entender oque foi dito: Gn 18,27;Jó 2,8;13,12;Is 44,20;61,3;Jr 6,26;Ez 27,30;Lm 3,16;2Sm 13,19;Jn 3,6;Mt 11,21). O homem expressa com isso (cf. Gn 18,27) a consciência da relativa nulidade da criatura diante do Criador.
Ao recebermos as cinzas ouvimos uma das fórmulas usadas: “Tu és pó, e em pó te hás de tornar” (Gn 3,19). Acinza recorda ao homem o reconhecimento de sua origem. A cinza é leve e por isso, ela é a imagem das coisas frágeis e efêmeras. Tudo é caduco. E toda avaidade, todo o brilho falso e esta vida mortal, um dia conhecerão um fim. Recebemos as cinzas para nos relembrar de que somos pó; é uma lembrança de que somos pó, de que não temos morada certa neste mundo, de que a morte é a única realidade inevitável no futuro de nossa existência. Na verdade, não é a morte que é absurda e sim a vida sem a morte. Muitos se esquecem da morte e por isso, acabam vivendo absurdamente e acabam vivendo somente em função do prazer. Como foi dito uma vez, quem vive em função do prazer, não tem prazer de viver. O prazer deve ser resultado de um viver bem. E para nós cristãos viver bem significa viver de acordo com os valores cristãos. A cinza é uma lembrança incômoda para quem acredita que o presente histórico é absoluto. Mas esta lembrança, na verdade, nos ajuda a vivermos bem, a colocarmos as coisas no seu devidolugar para ganhar seu justo valor e sua justa perspectiva.
Com as cinzas recebidas o homem experimenta o próprio nada. Para expressá-lo, cobre-se de cinza. Quando o homem experimenta o seu nada, não há lugar nele paraa arrogância. Ao contrário, ele volta a ser humilde: humus, pó, criatura dependente de Deus. Quando vivemos a humildade que é a nossa própria existência opoder e a glória mundanos não vão nos atingir. Mas quando o homem deixar de reconhecer sua condição de criatura, querendo igualar-se a Deus, ele se tornará um pó morto e por isso, terá que voltar à terra de que foratirado, “porque és pó, em pó te hás de tornar” (Gn 3,19).
E somente quando o homem reconhece que é pó, que faz parte da terra, e que tudo o mais provém de Deus, brotará novamente a vida desse pó. E certamente as cinzas usadas na Quarta-feira de Cinzas provém das palmas do Domingo de Ramos do ano anterior, palmas triunfais do Cristo vitorioso sobre o pecado e a morte.Cristo, morrendo, deu nova vida à terra, conquanto ohomem se reconheça como terra, pó. A quem assimconfessa o próprio nada faz-se ouvir a promessa de Jesus Cristo que vem triunfar do pecado e da morte, consolar os aflitos e dar-lhes, em lugar de cinzas, um diadema, uma coroa de um rei.
Ao receber as cinzas, o cristão testemunha o absoluto de Deus em sua vida. E como conseqüência da profissão sobre o absoluto de Deus, o cristão relativiza todas as coisas. Isto quer dizer que as coisas somente têm seu valor em relação ao seu Criador. Sob o sinal das cinzas, ocristão reafirma hoje a sua liberdade de filho de Deus e ao mesmo tempo reafirma sua condição como pó ou criatura e que só pode sobreviver como tal por causa da misericórdia de Deus. E Deus não tem como não ajudá-lo, pois o ser humano foi feito de acordo com a própria imagem de Deus (cf. Gn 1,26). Devemos ler, portanto, astrês práticas de piedade apresentadas através do evangelho deste dia que abre nossa caminhada quaresmal.
A leitura do Evangelho quer responder a seguinte pergunta: “Como agradar a Deus?”. A prática da esmola, da oração e do jejum tem finalidade de sintonizar-noscom a vontade do Pai, de forma a preparar-nos da melhormaneira possível, para a celebração da Páscoa.
Jesus enuncia o princípio geral sobre a prática dessa piedade. Estas obras de piedade não se devem praticarpara ganhar prestígio diante dos homens e com isso,adquirir posição de poder ou privilégio. Os que fazemassim privam-se da comunicação divina, cessa a relaçãode filho-Pai com Deus. Segundo Jesus, ninguém merece agraça de Deus se ele finge executar ação que nãocorresponde à atitude interior que ele chama de hipocrisia.
A linguagem utilizada por Mt nesta passagem e nas outras duas seguintes revela uma forte polêmica entre cristãos e judeus. Os hipócritas são os fariseus do tempodo evangelista que praticavam e queriam impor aos outros um cumprimento externo da Lei de Moisés. Segundo Jesus aos quer querem entrar no Reino dos céus devem cumprir a vontade do Pai sem ostentação.
A expressão utilizada por Mt para descrever esta atitudee comportamento(praticar a justiça) somente aparece neste evangelho sete vezes. Cinco delas se encontramem Mt 5-7) e tem uma grande importância para ateologia de Mt. Mas não se trata da justiça como a entendemos. Quando se fala da justiça nos círculos judaicos trata-se do conjunto de atos que fazem o homem merecedor da salvação. Entre os fariseus do tempo de Jesus estes atos de piedade eram fundamentalmente três: a esmola, a oração e o jejum.Mas para muitos estas práticas se tornavam uma questãopuramente externa e um motivo de orgulho, até o ponto de que alguns faziam exibição pública de sua religiosidade(justiça).
Os profetas do AT falam freqüentemente do dever da compaixão para com o pobre, mas eles acentuam muito mais a justiça do que a caridade. O mendigo ou o pobre é acusação de um sistema injusto que gera pobres e miseráveis, dependentes da “bondade” alheia. Mendigo é o fruto de uma sociedade que não quer partilhar seus bens para os outros(Mas de outra lado, certo mendigo é aquele que quer uma vida fácil, pois pela experiência,muitos não querem trabalhar, apesar de alguém oferecer-lhe trabalho. Mas eles são apenas um grupo pequeno).
A esmola deve ser expressão da misericórdia que existe no coração de quem se faz solidário com a carência alheia. A solidariedade acontece quando o homem tem compaixão, quando sente na própria pele o sofrimento alheio. O que sobra para nós, por pouco que seja, sempre faz falta para os outros que não tem nada. Mas sempre ficamos incomodados, pois sabemos que isso nuncaresolverá completamente o problema do mendigo ou dopobre. Mas a esmola é um sinal, um lembrete de quedevemos lutar por um sistema econômico que realmentefaça uma partilha justa dos bens. Reflitamos as palavrasde São Basílio(+ 379): “Ao faminto pertence o pão que guardas. Ao homem nu, o manto que guardasaté nos teus cofres. Ao que anda descalço, o calçado que apodrece em tua casa. Ao miserável, o dinheiro que guardas escondido. É assim que vives oprimindo tanta gente que poderias ajudar”. E Santo Agostinho acrescenta: “O Senhor te fez servo bom, mas tu criaste em teu coração um mau senhor. Ficas alegres por causa da riqueza do cofre e não te lamentas pela pobreza de teu coração? Há acréscimo em tua arca, mas observa bem o que diminui em teu coração”.
O próprio Jesus menciona a esmola para censurar a ostentação(cf. Mt 6,22ss). Isso devemos começar dentrode nossa família. Enquanto isso não acontece, ficamos incomodados.
Ao dar a esmola Jesus pede a separação da pessoaquem a dá do seu gesto: “...a tua mão esquerda ignore aquilo que faz a direita...E o teu Pai...dar-te-á a recompensa”(vv.3-4). O resultado do bem fica escondido ao homem que recusa de ser o juiz de seus atos. O únicocapaz de apreciar é um Deus invisível que habita nosegredo e não presta conta a ninguém. Um dito populardiz: “Se você fizer um benefício, nunca se lembre dele; sereceber um, nunca se esqueça dele”. A vida vivida apenaspara satisfazer a própria pessoa nunca satisfaz ninguém.Não há melhor exercício para fortalecer o coração do queestender o braço para baixo e erguer pessoas. A bondade é o único investimento que nunca falha.
A instrução sobre a oração (vv.5-15) é a mais extensadas três práticas de piedade judaica e está situada nocentro literário do Sermão da Montanha. Esta instruçãoestá composta por uma introdução sobre a forma de orar(vv.5-8), o Pai-Nosso (vv.9-13) e uma conclusão que falado perdão(vv.14-15).
Através deste texto Mt quer fazer uma catequese sobre aoração cristã, semelhante a de Lc (Lc 11,1-11), mas cadaum dos dois evangelistas se dirige a um grupo distinto. Lc escreve para uma comunidade que necessita aprender aorar. Mt, ao contrário, escreve para uma comunidade quejá sabe orar, mas necessita aprender a fazer a oração deoutra maneira (“Quando orardes, não sejais como oshipócritas...” v.5.7). Lc tem diante de si uma comunidadede origem pagã que não tem hábito de orar(será queviraremos pagãos se pararmos de orar?). Mt, aocontrário, está diante de uma comunidade onde há bastantes judeus que haviam aprendido a orar três vezespor dia desde sua infância.
Mt enfrenta um problema em relação à prática de oração. A oração como as demais práticas religiosas os fariseusconvertem em um motivo de ostentação e em umaprática pura externa. A oração não é mais um momentode falar com Deus, mas serve de instrumento paraalcançar honra e prestígio diante dos homens.
Mt convida os cristãos a recuperar o sentido religioso daoração, purificando-a daquilo que há desviado a oraçãode seu fim. Para Mt a oração do cristão deve estabelecerum relacionamento íntimo com o Pai: “...entra no teuquarto, fecha a porta, e reza ao teu Pai” (v.6a), numclima de abandono e confiança em Deus: “O Pai de vocêsjá conhece as necessidades que vocês têm”(v.8). Oscristãos devem orar como Jesus orava. E o estilo destaoração é condensado na oração do Pai-Nosso (vv.9-13).
Uma das principais raízes da vida cristã que nos ajuda a sugar a energia inesgotável do amor divino é a prática daoração. Nossa oração deve ser discreta, vivida na intimidade de nosso coração, repleta de silêncio capaz deperceber as insinuações do Espírito Santo. Mas só se cresce na vida de oração, reservando a ela, diariamente, o mesmo tempo, pelo menos, que reservamos às refeições que nutrem o nosso corpo.
Sobre o jejum Mt utiliza o mesmo esquema literário que há utilizado nas duas instruções anteriores (quando...nãofaçam como os hipócritas: v.2.5.16). Como já foi refletido no domingo anterior, o jejum era uma prática estendida entre os grupos religiosos ao redor de Jesus (Mt 9,14). Os fariseus jejuavam duas vezes por semana (Lc 18,12).
Mt relata que Jesus praticou o jejum para preparar-seantes de exercer sua missão (Mt 4,12). E a comunidadede Mt praticava o jejum (Mt 9,15), mas Mt quer dar um sentido novo a esta prática, evitando toda a ostentação exterior.
Com o jejum evitamos que os bens deste mundo não nos escravizem. Faz uso deles para o bem próprio e do próximo, e neles degusta o Bem maior que é Deus. Jejuar, então, significa abster-se de alimento, tomar uma atitude de respeito e de liberdade diante das coisas, fazerespaço para os outros e para Deus, confiar na providênciade Deus; constituir um ato de conversão a Deus atravésdas coisas. Neste tempo quaresmal devemos aprender amorrer com Cristo para renascer com ele. Com a ajuda desua graça, devemos combater tudo aquilo que, na nossavida, impede o nascimento do homem novo anunciadopelo Evangelho: nossas tendências burguesas, nossospequenos apegos, o comodismo ou o medo que nosimpedem uma atuação mais eficaz, nosso farisaísmo emsó querer fazer aquilo que nos dá vantagem ou prestígio,nosso vício/nossa dependência da TV ou do mundo virtualcomo a internet etc.
Muita gente acha que a quaresma é apenas um tempoem que não se come carne às sextas-feiras. No Brasil agrande maioria não come carne em dia nenhum não porcausa de dieta ou por questão de saúde, mas porque não tem condição para ter carne. Por isso, aqueles que não passam necessidade, devem mesmo por uma questão desolidariedade aos necessitados, privam-se de carne ou de outras coisas.
O jejum que agrada a Deus, diz o profeta Isaías (Is 58,1-14) é quebrar as cadeias injustas, libertar os oprimidos,realizar a justiça.
A quaresma, neste sentido, é o tempo em quereassumimos a nossa vida cristã com um engajamentoefetivo de transformação do mundo em vista do Reino deDeus.